INFINITAS POSSIBILIDADES !!

Querid@s,


Neste espaço compartilho as experiencias e impressões do dia a dia, seja dos relacionamentos, da vida, dos sentimentos e das pessoas. Lembranças e esperanças, concretos e abstrações, angustias e alegrias e principalmente a entrega no mundo das possibilidades que permite que celebremos encontros, desencontros, sabores, dissabores, afetos e desafetos, muitas vezes catarseando e outras transloucando.

Nossas possibilidades são infinitas como o amor, profundas como a vida e encantadoras como nós. Nossos pensamentos e reflexões vivem no limiar das experiencias e sucubem no desconhecido, portanto, permitir que vocês percebam as cabriolas do mundo interior ao se identificar com alguns textos ou opor-se a outros, ou ainda plantando uma semente para reflexão acerca de qualquer tema seria minha primeira intenção, porem, despretensiosamente, simplesmente desenharei palavras e às imagens vocês darão as cores, as formas e o destino de cada viagem à subjetividade, cada um criará.

Serão bem vindas as criticas, sugestões e partilhas.

Sera um prazer navegar com vocês!

Sejam bem vind@s! Namastê!


domingo, 9 de dezembro de 2012

Verdades relativas e absolutas.


Verdades relativas e absolutas.

Ainda criança, passando pelos 11 anos, corria pelas ladeiras do Alto do Cabrito, descendo pela cachoeira de São Bartolomeu para encontrar com minha segunda namoradinha e com outros amigos, Rosalvinho sonhava em ser jogador do Vitoria, Fabio era o engenheiro dos carrinhos de rolimã, as gêmeas, que nossos pais não queriam que brincássemos, porque corria a boca miúda que o pai era especialista em distribuir a Cannabis, mesmo assim,   sempre dávamos um jeito para acolhê-las e levá-las conosco.

O encontro com a aventura era certo... Tantas vezes minha mãe com o caçula nos braços procurava-me em casas vizinhas e eu seguia o caminho da felicidade... A descida pelas longas escadas, os caminhos de terra escorregadios, a travessia do riacho através de um tronco de arvore caído, que servia de ponte para seguirmos a trilha da cachoeira de São Bartolomeu, onde por vezes nos banhávamos e outras passávamos sem percebê-la em meio ao anseio de chegarmos ao Alagados.

O mais importante era encontrarmos nossos amigos e eu tinha uma felicidade escondida, que a cada passo nesta direção sentia o coração acelerar e por vezes fechava os olhos imaginando minha indiazinha... com cabelos de franjinha, olhos bem pretos e a esperteza de conhecer todos os lugares das palafitas por onde não devíamos passar, porque as “tábuas não estavam boas”, e por vezes, caiam pessoas por ali, sem esquecer que sempre que findava a tarde ela era a única que lembrava o horario de voltar para não correr o risco de um ou outro tomar uma surra.

Geralmente, saíamos depois do almoço, e voltávamos quando o sol se aproximava do azul da baía de Todos os Santos, corríamos até o final da palafita que minha lindinha morava, onde já não havia mais aonde ir, a não ser  o mar e seus dejetos. Ficávamos admirando o trem passar, as lanchas, mas também fazíamos tiro ao alvo com as garrafas plásticas, sem nos incomodar com os resíduos dos banheiros que caiam direto no maré, tão pouco com o cheiro que de lá exalava. Éramos todos felizes, companheiros, defensores um dos outros e principalmente solidários. 

Um dia nos reunimos na casa de um dos amigos que ali morava e entramos em cinco. A casa era coberta de telhas Eternit e as paredes eram com tábuas que eram encontradas muitas vezes nas construções da Avenida Suburbana. Sendo mais humilde que a casa de todos os outros, não havia cama, apenas um colchão de casal no chão, onde dormiam a mãe solteira e seus dois filhos, um filtro de barro em cima de um banco de plástico, duas caixas de papelão onde  guardavam as roupas, pratos e canecas de alumínio e uma TV preta e branca Philips, ficava disposta em frente ao colchão. Ele nos ofereceu a melhor merenda que poderia ter, Farinha com Açúcar, com as canecas cheias... hum... nada poderia ter sido melhor, merenda de dar água na boca, farinha bem torradinha e grossa e açúcar com os grãos que pareciam pedacinhos de gelo.

Alguns dias depois, ficamos sabendo que nosso amiguinho havia apanhado porque acabou com a farinha e o açúcar que tinha em casa. Ficamos tristes e passamos uns dias sem ir às palafitas, minha mãe também proibiu e  falou dos riscos, mas tudo era tão bom e tão feliz. Ficávamos na praça do Alto do Cabrito conversando para saber como levar a merenda de todos os dias para a casa de nosso amiguinho, substituindo e amenizando assim a razão porque havia levado aquela surra e o castigo de não poder por a cara na rua, ou melhor, na palafita que morava. Por fim, Fabinho teve a idéia de que só eu e ele fossemos lá levar. Mas como compraríamos se não trabalhávamos? Então Dandão, um amigo mais velho de todos nós, politicamente falando em tempos atuais, portador de necessidades especiais, ia la pelos  20 anos, e apesar de estar conosco,  nunca podia nos acompanhar nas aventuras dos alagados, então ele deu uma brilhante idéia, através de gestos e das palavras que nunca entendíamos: cada um pegaria escondido em casa um quilo de cada item. 

Assim fizemos, eu particularmente, deixei todos em casa dormir, peguei o combinado e escondi na horta que plantei com minha mãe, onde tinha quiabo, alface, couve, dentre outros. Mas pela manha minha mãe perguntou o que era aquilo ali escondido. Contei a ela e lá foi o sermão, enfim, deixou levar sem mais delongas. Ah, só não contei que era na Suburbana, um nome mais bonito que Alagados e que os pais gostavam de pronunciar para esconder suas verdadeiras moradias.

No dia seguinte esperamos ansiosos. No mesmo horário nos encontramos com as encomendas em mãos. Quando eu e Fabio nos olhamos, demos um riso envergonhado e  perguntamos como levaríamos aquelas duas sacolas pesadas. Seguimos caminho, o mais longo de todos. Não haviam escadas, nem trilhas escorregadias, nem arvore que serviu de ponte, nem a cachoeira de São Bartolomeu. Mas havia o cansaço, os braços magricelos doloridos e a vontade de desistir. Sentamos para descansar um pouco. Pedimos um copo de água no caminho e fomos conversando sobre o drama de consciência de "roubar" em casa o que íamos dar, quando então eu falei com o Fabio que minha mãe havia deixado levar a encomenda e ele demostrou o medo que estava do pai, se este descobrisse a subtração que a na noite anterior fizera, no entanto, não titubeou na nobre missão.

Enfim, batemos na porta e a mãe de nosso amigo nos surpreendeu abrindo-a e assustados com a mulher negra, gorda, com os cabelos espichados, perguntando com um vozeirão que depois tive até pesadelos: O que vocês querem aqui ? Saímos correndo imaginando que ela queria nos pegar, só paramos de correr quando chegamos na cachoeira, demos muita risada enquanto o coração quase pulava pela boca. A tarde passou, cansados caminhamos a passos lentos e ao chegar mais tarde que os outros dias, o pai de Fabinho o esperava na porta de casa, o medo se concretizou e ambos ele e o Rosalvinho, que eram irmãos,  já não podiam mais fazer parte das brincadeiras.

Não mais a minha namoradinha, nem as palafitas, nem as águas calmas da maré com todos os dejetos e cheiros, nem a farinha com açúcar que era o manjar dos deuses, nem o trem, nem o sol deitando sobre o azul da baía de Todos os Santos que abençoava a todos nós vizinhos e moradores. Não mais os banhos de cachoeiras, protegidos por São Bartolomeu com a sua espada na mão, dando a coragem necessária para que os que por ali passavam continuassem a lutar pela vida, personificado por Oxumaré, representando a continuidade da vida, não mais os sonhos que se tornaram elasticos, somente a dualidade dos corações...

Anos a fio e tudo se dissolveu... Menos as lembranças que me traz ao peito a angustia do destino de tantos amigos pequeninos que se perderam pelo caminho. Como se muito não fosse, por fim, a reflexão de que a falta de farinha e açúcar em uma casa, pode provocar muita dor e mudar tantos caminhos... Esmaeceram as palafitas, as pessoas, os sonhos e o sol continua deitando sobre o azul da baía de Todos os Santos que não conseguiram proteger a todos. Saudações de Oxumaré:  "A Run Boboi!!!", quer dizer em yorubá: "Vamos cultuar o intermediário que é elástico". 

Oxalá! Atoto!

2 comentários:

  1. Infância remota e que não mais existe! Tempo que não volta... vida que escorre pelas mãos... Felicidade que se exala! Tenho saudade do tempo de menina, que me trazem lágrimas nos olhos. Tenho desejo de ver as crianças expressarem a felicidade e o prazer pela vida de maneira tão simples, tão concreta, tão inocente e verdadeira!
    Bom texto!!!!

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  2. Os detalhes da infância são imagens, sons e cheiros que est
    ao impregnados em nossa mente de tal forma que, quando a saudade daquele tempo bate, é uma sensação indescritível... Você, com o dom de traduzir esse sentimento em palavras, produziu um texto lindo, um pouco denso no quesito saudade, e deliciosamente saboroso de se ler...Tive o privilégio de ter essa infância inocente, dos namoricos em que tínhamos apenas as mãos dadas e a retribuição do sentimento.
    Por fim, acredito que somos felizes, Márcio, em poder consultar a nossa mente e reviver esses momentos de ternura cada vez que a saudade bater a nossa porta. Parabéns!!!

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